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Aluno do ELITE é capa da Revista Época

O triunfo do talento

Página 05

Múltiplas habilidades

A vida de Gilberto mostra que ele reúne diferentes formas de inteligência, da matemática à emocional

Automotivação

Gilberto nunca desistiu de aprender, apesar da oposição da família e das circunstâncias adversas. Ao fim do dia de trabalho, estudava à luz de velas na escrivaninha que ele construiu. Os desdobramentos desse tipo de inteligência:

- Persistência, concentração e compromisso com as tarefas

- Motivação interna, não depende de estímulos de outras pessoas

- Iniciativa, autoconfiança e envolvimento com seus interesses

Talento matemático

Os amigos da família chamavam Gilberto de “matemático”, porque o menino resolvia contas de cabeça aos 4 anos. As características dessa forma clássica de inteligência:

- Capacidade para associar símbolos

- Organização interna do raciocínio

- Facilidade para identificar causas para os fenômenos observados

Talento verbal

Gilberto se expressa de forma clara e segura. Aos 8 anos, conversava com os professores da irmã, sete anos mais velha. Como o talento se expressa:

- Domínio da comunicação e da língua

- Precisão e concisão no modo de se expressar verbalmente

Inteligência emocional

Sua mãe diz que Gilberto sempre “pareceu adulto”, pela maneira tranqüila com que tratava os mais velhos. Hoje, circula sem problemas entre colegas com origem social e formação cultural totalmente diferentes das suas. As características dessa inteligência:

- Senso avançado de tato, confiabilidade e empatia

- Capacidade para persuasão e influência, boa sintonia com o grupo

- Maturidade e autocontrole

Fonte: Desenvolver Capacidades e Talentos, de Zenita Guenter

Há também a questão do trabalho infantil, que foi sempre uma sombra em sua vida. É algo comum no Brasil. No ano passado, havia 4,8 milhões de crianças e adolescentes dando expediente no país, um em cada dez brasileiros entre 5 e 17 anos. Além dos riscos físicos, o trabalho prejudica a concentração na escola e o desenvolvimento intelectual. Renato Mendes, coordenador no Brasil do Programa de Combate ao Trabalho Infantil da OIT, a Organização Internacional do Trabalho, diz que no campo o contexto cultural é diferente, talvez mais grave.

“Em geral, os pais querem que os filhos estudem, mas o modelo de educação no campo não faz sentido para eles”, afirma Mendes. Ele sustenta que as escolas rurais deveriam tratar de atividades ligadas ao trato da terra e da criação, para cumprir uma função prática. Mas o modelo educacional é urbano e percebido como inútil. “O pai acha que o menino vai andar 6 quilômetros para não aprender o que precisa. Não vê perspectiva na educação”, diz Mendes. Na casa de Gilberto, parece ter sido assim. Os pais precisavam de ajuda no sítio e achavam, com base na própria experiência, que seria melhor para o menino se dedicar desde cedo ao trabalho. Quando começou a escola à noite, a mãe temia que ele, magrinho, não fosse agüentar o esforço do trabalho físico e do pouco sono. Hoje, tendo visto o sucesso do filho, tremendamente orgulhosa dele, Manoelina se constrange em lembrar as discussões familiares causadas pela insistência do filho em estudar. “Prefiro não falar sobre isso”, diz ela.

Gilberto não sabe explicar de onde veio seu sonho e sua determinação. Ele quis ser engenheiro sem saber o que era um engenheiro. Em um lugar onde não havia engenheiros. Em uma família na qual nunca houve um engenheiro. “Talvez tenha sido a televisão”, diz. Quando a TV chegou a sua casa, ele teria uns 13 anos. Lembra de um impacto tremendo. Aquela avalanche de novidades. Um mundo inteiro que não existia antes. O Jornal Nacional. Pode ter sido isso. Ou talvez o sonho tenha vindo do exemplo de Rosângela, meia-irmã, filha do primeiro casamento do pai. Ela se formou em Direito no Paraná, enfrentando enorme adversidade. Era parte da lenda da família. Distante, mas, de alguma forma, presente. “Eu realmente não sei”, diz Gilberto.

Hoje em dia, ele tem planos claros: quer formar-se engenheiro e trabalhar algum tempo no mercado financeiro. Com isso, pretende juntar dinheiro e experiência para empreender. Deseja tornar-se empresário e está construindo ferramental para isso. Neste mês, enquanto a maioria dos universitários goza férias, ele inicia estágio em uma das fábricas da AmBev, em Campinas. “Acredito muito em trabalho”, diz Gilberto. Nem poderia ser de outro jeito. Os jovens de famílias abastadas nascem cercados de privilégios que nem sequer percebem. Para Gilberto, cada um deles é uma conquista: o acesso ao conhecimento, os contatos humanos, as viagens. Freqüentemente, há choques. Tendo crescido no interior, em uma família religiosa, ele se espanta ao ouvir colegas de escola que se declaram ateus. “Ainda fico chocado”, diz. “Não sou muito religioso, mas acredito em Deus.” É espantoso, na verdade, que o convívio de Gilberto com os colegas de escola e da Fundação Estudar seja tão natural, considerando as enormes diferença s de origem. Todo mundo ao redor de Gilberto fala inglês e quase todos vêm de famílias de classe média. Têm experiências culturais muito mais cosmopolitas que as dele. Ele percebe a diferença, claro, mas parece lidar com ela sem complexos.

“Gilberto é da geração Y, que está recebendo dos pais uma agenda pronta e não mostra muita iniciativa. Mas ele é totalmente diferente”, diz a psicóloga Bruna Dias, da Companhia de Talentos, consultoria de RH especializada em orientação de carreira. Bruna já fez uma discussão individual com o jovem de Mato Grosso e participa com ele de sessões de grupo sobre trabalho e futuro profissional, como parte das atividades da Fundação Estudar. Ela não tem dúvida de que Gilberto é comprometido, obstinado, faminto por aprender e conquistar. “Ele vai longe”, afirma. Quer dizer: mais longe.

Aluno do ELITE no Fantástico

http://fantastico.globo.com/Jornalismo/Fantastico/0,,AA1468866-4005-643712-0-25022007,00.html

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