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Aluno do ELITE é capa da Revista Época
O triunfo do talento
Página 04
Resgatado
Evaldo, o estudante de Brasília, com suas moedas. O núcleo de apoio a superdotados (ao lado) fez com que ele se interessasse novamente em aprender.

Em um bairro da periferia de Brasília, Evaldo Pereira de Rezende não via mais motivos para ir à escola. Aos 11 anos, preferia ficar em casa, estudando as moedas de sua coleção. Ele tem mais de mil. Os pais não entendiam por que o filho faltava tanto. “Pensei que ele tinha brigado com algum menino”, diz a mãe, Ana Pereira de Rezende. Foi tanta falta que ele repetiu a 4a série. Preocupada, a orientadora pedagógica da escola passou a prestar atenção no aluno. Na 6a série, com a ajuda dos especialistas do Núcleo de Altas Habilidades de Brasília, ele foi identificado como superdotado. Depois do Núcleo, sua vida mudou. Ele deixou de faltar à escola e suas atividades fora de casa aumentaram. Escreve artigos e dá palestras sobre a história das moedas. Agora, aos 17 anos, quer fazer três faculdades: Sociologia, Ciência Política e História. “Vou ser pesquisador ou professor universitário”, diz.
Outro caso, bem menos feliz, é o de João Sperandio Neto. Aos 22 anos, ele foi indiciado em novembro pela Justiça de São Paulo por aplicar golpes pela internet em valor superior a R$ 2,2 milhões. O delegado que acompanhou o caso, Luiz Storni, diz que ficou surpreso ao saber a idade do rapaz. “Ele sabia muito para uma pessoa tão jovem.” Sperandio é de família simples e, segundo o delegado, parece autodidata. Tudo sugere que era o especialista técnico de uma quadrilha com outros integrantes. Ao programa Fantástico, da TV Globo, o rapaz disse que começou a praticar crimes virtuais aos 15 anos, por diversão. Afirmou já ter trabalhado para os criminosos, mas sob ameaça. Pode ser. Mas os especialistas vislumbram cenários em que a colaboração entre a inteligência e o crime ocorra de forma voluntária. “Esses meninos precisam exercer seu potencial, sob o risco de ser atraídos pelo crime”, afirma Olzeni Ribeiro, coordenadora do Núcleo para Superdotação do Distrito Federal. “Se um menino desses é cooptado por uma gangue, dificilmente será resgatado. É o contexto em que ele mais se sente desafiado, em que sua inteligência é mais valorizada.”
Gilberto não sabe explicar de onde veio sua ambição. “Talvez da televisão”, diz ele. “Era um mundo novo”
Gilberto escapa do perfil típico do superdotado. Os psicólogos modernos dizem que há vários tipos de habilidades mentais e elas raramente andam juntas. O raciocínio matemático freqüentemente não se dá com a facilidade verbal. Outras vezes não coincide com as habilidades sociais conhecidas como inteligência emocional. Gilberto parece ter várias delas, em grau elevado. Ele se expressa bem. Ele interage muito bem com as pessoas, mesmo quando vêm de situações sociais diferentes da sua. Ele inspira confiança. Ele demonstra inteligência prática na forma de organizar e conduzir sua vida. Mesmo sua persistência, que parece uma virtude de caráter, pode ser outra manifestação de seu talento intelectual. Os especialistas chamam a obstinação de “envolvimento com a tarefa”, uma característica comum entre os muito inteligentes. Renata Maia Pinto, que até maio era responsável no Ministério da Educação pelos projetos de superdotados, percebe essa característica em Gilberto. “Ele teve muita perseverança. Isso é típico”, diz ela.
Eliel Silva, do cursinho Elite, aponta na trajetória de Gilberto outra provável manifestação de uma inteligência incomum: a capacidade de imaginar algo que não tinha nenhuma relação com a vida que ele conhecia. “Pense num garoto conduzindo um carro de boi no interior de Mato Grosso e se imaginando aluno do ITA, algo que nem poderia saber como era”, diz. “É extraordinário.” As experiências dos educadores com crianças muito pobres é bem diferente. Elas em geral não têm grandes horizontes. Têm dificuldade em se imaginar fazendo coisas importantes como adultos. Não se vêem como advogados, médicos, engenheiros, artistas. “Quando a criança é pobre, seu projeto de vida não é individual”, afirma Ana Lustosa, do Piauí. “Ela chega em casa e já tem de ajudar, limpar, fazer o jantar ou até sair para trabalhar. Ela não tem estímulo para pensar em si, mas no projeto coletivo, da família.” Parece a situação doméstica de Gilberto.




