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Aluno do ELITE é capa da Revista Época
O triunfo do talento
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Como identificar o talento?
A partir de janeiro, as escolas estaduais de São Paulo vão receber o livro Um Olhar para as Altas Habilidades. A idéia é ensinar os professores a identificar alunos superdotados. A autora, Christina Cupertino, uma das maiores autoridades brasileiras no assunto, enumera as principais características desses alunos, dá dicas sobre o comportamento deles e conta como outros professores já fizeram a identificação. A experiência tem como base a formação de supervisores e coordenadores que acontece em São Paulo há um ano e já ajudou a achar 397 superdotados.
Como tinha dificuldades em escrever, fez o maior número de redações que alguém já havia feito durante um ano no cursinho. Nas outras matérias não era muito diferente. Em poucos meses, foi apresentado a uma multidão de conteúdos que nunca vira. No início, sofreu. Mas, no fim do ano, já fazia perguntas que obrigavam os professores a parar e pensar. Gilberto aprende rápido e trabalha duro. Resultado: entrou em primeiro lugar na Engenharia da USP em São Carlos, foi primeiro lugar da Engenharia Elétrica da Unicamp, foi aprovado no Instituto Militar de Engenharia e, claro, no ITA. “Meu filho teve muita garra”, diz a mãe, Manoelina. “Eu era contra estudar, queria ele por aqui. Hoje, me arrependo.”
Se as estimativas estão corretas, há no Brasil pelo menos 1,6 milhão de crianças e adolescentes como Gilberto, com grande facilidade de aprendizado. É o que se chama normalmente de superdotados. O número corresponde a 3% da população escolar do país, de 53 milhões de estudantes entre a pré-escola e o ensino médio. Identificados, porém, há apenas 2.902 alunos desse tipo. Não é preciso ser superdotado para fazer a conta do desperdício de talentos: para cada Gilberto Giuzo que aparece, há 550 que o sistema educacional brasileiro não soube identificar. Na tentativa de melhorar essa estatística, o Ministério da Educação criou, em 2006, uma rede nacional de atendimento, os Núcleos de Atividades de Altas Habilidades. Há um por Estado, sempre nas capitais. Sua finalidade é identificar e ajudar os jovens com maior potencial de aprender. Parece, porém, que a coisa não está funcionando muito bem. Fora o núcleo de Brasília, que existe desde 1976 e serviu de inspiração para o programa federal, o trabalho aind a é embrionário. A identificação dos superdotados é lenta, a estrutura que se oferece a eles é frágil. “O cenário é desanimador”, diz a professora Eunice Soriano de Alencar, da Universidade de Brasília, especialista com 20 anos de experiência no estudo de superdotados. “Investimos nada nessa área. A educação pública é muito ruim. A estrutura é perversa. As crianças pobres que conseguem sobressair são verdadeiros milagres.”
No primeiro simulado do cursinho, Gilberto foi o primeiro entre 220 alunos. O dono veio falar com ele.
Como em outras áreas da educação, o Brasil está ficando para trás. Há bons programas para atendimento aos alunos superdotados em diversos países. Inglaterra, Israel, Taiwan e Chile são algumas das referências mundiais. A China, embora atrasada, está investindo pesado em identificação e estímulo aos supertalentos. No Chile, onde se faz o melhor trabalho da América Latina, os professores da rede pública são treinados e recebem um guia com as características da superdotação. Na 5a série, quando têm entre 10 e 11 anos, os alunos identificados passam a freqüentar cursos e oficinas. “Um aluno talentoso que nasça na região de Temuco, por exemplo, será identificado e atendido”, diz a psicopedagoga Sonia Bralic, fundadora do programa. “Mas há milhares que moram em regiões onde não há cobertura dos programas.”
Em Mato Grosso, o Núcleo de Altas Habilidades funciona desde 2007, em Cuiabá. Até agora treinou professores de três escolas para identificação de superdotados. Todas na capital. Se houver outro aluno talentoso em Nova Bandeirantes, de onde veio Gilberto, a 1.020 quilômetros de Cuiabá, ele não será percebido. “Ainda não há perspectiva de levar o serviço para aquela região”, diz Márcia Aparecida Molinari, coordenadora do Núcleo de Altas Habilidades do Estado. As conseqüências da não-identificação são terríveis, afirmam os especialistas. A criança muito inteligente se frustra de forma profunda com a anemia intelectual do ensino normal, inclusive o da escola privada. Daí para o desinteresse, a depressão e o abandono é um passo. Que ocorre freqüentemente. “Este moço, Gilberto, é um caso muito raro”, diz a psicóloga Ana Fortes Lustosa, da Universidade do Piauí. “O apoio da família e da escola é essencial para que as crianças se desenvolvam. Ele teve enorme automotivação. Viu sozinho uma saída.”
