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Aluno do ELITE é capa da Revista Época

O triunfo do talento

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Estudar não é a regra na zona rural de Mato Grosso, pelo contrário. O porcentual de abandono na 4a série em 2005 foi de 10,5%. Para fazer a 5a série, as crianças da roça freqüentemente têm de se deslocar para a cidade. Ou desistem. Gilberto percorria uma distância de ida e volta de 12 quilômetros de bicicleta para estudar. Seu pai havia morrido em 1991 – por complicações da malária, endêmica na região –, e a vida não estava nada fácil. “As pessoas na região achavam que estudar era um jeito de fazer corpo mole e evitar o trabalho”, diz o rapaz. Em sua casa não era muito diferente. A mãe casou-se novamente, e ele parou de estudar no meio da 8a série, aos 14 anos.

Voltou um ano depois, terminou o ensino fundamental, parou de novo. Nesses períodos sem aulas, trabalhava no campo o dia todo. “Estudar era chato, mas o trabalho era muito pior”, diz Gilberto, lembrando seus sentimentos da época.

“Percebi que as pessoas faziam a mesma coisa havia 30 anos.”

Em 2002, iniciou o ensino médio. Para estudar à noite, andava 50 quilômetros de ônibus. Levantava às 6h30, para trabalhar no sítio, voltava para casa depois da meia-noite. Vivia cansado. A pressão doméstica para que parasse de estudar retornou, acentuada. Gilberto resolveu apressar o processo de sua educação: optou por prestar os exames supletivos. Com a ajuda do padrasto, comprou cinco livros que resumiam as matérias do colégio e passou a estudar por conta própria. Em casa, ele lia à luz de velas, porque o sítio não recebia luz elétrica. Fez as provas e passou. Sua pior nota foi 6,5, em Português. “Era muito fácil”, diz Gilberto, sem nenhuma vaidade aparente. Os exames de supletivo costumam ser fáceis, mas Gilberto não tinha exatamente uma sólida formação escolar.

Na semana passada, ele explicava sua insistência em estudar nos termos de uma fábula animal. “Fiz como o burro bordoso”, diz ele. Isso significa um bicho teimoso, que volta ao lugar aonde deseja ir, por mais que o espantem. “Eu insisti com a família”, diz ele, com um sorriso. O rapaz de 24 anos continua magro, bem magro, mas agora tem 1,76 metro de altura e cabelos pretos, espetados. É evidente que gosta de conversar, embora mantenha certa reserva. Fala com desenvoltura e modéstia sobre suas realizações, que não são poucas.

Depois do supletivo, conseguiu fazer 55 de 63 pontos possíveis no Enem, pontuação muito acima da média de 34 pontos das escolas públicas de Mato Grosso. Com essa nota, obteve uma bolsa do ProUni para estudar Engenharia na PUC de Campinas, em São Paulo. Não ingressou na faculdade porque sua família tinha títulos de terras e o ProUni é reservado para estudantes carentes. Gilberto lembra que quase desmoronou. Estava lá, praticamente na universidade, viu os alunos começar as aulas e foi excluído, na última hora. “Achei que as coisas nunca dariam certo para mim”, diz ele. Pensou em voltar para Mato Grosso, mas, dessa vez, a família se opôs. A mãe disse a ele por telefone que ficasse. A tia Idalina Santos Soares, em cuja casa ele estava, repetiu a mesma mensagem.

Gilberto ficou e resolveu se preparar “direito” para o vestibular, fazendo cursinho. Queria o ITA, o Instituto Tecnológico da Aeronáutica, porque era uma escola de Engenharia onde “havia salário e alojamento”. Mas a prova para preencher as 120 vagas anuais é simplesmente a mais difícil do Brasil. Há bons estudantes do país inteiro que tentam passar por ela três ou quatro vezes, sem sucesso. Gilberto percebeu que precisava de um emprego para pagar o cursinho e manter-se na cidade. Apareceu uma vaga de pedreiro, ele agarrou. Mas já no dia seguinte conseguiu coisa melhor, no laboratório de uma ótica no centro de Campinas. Trabalhava de dia para pagar o cursinho, noturno. Morava com a família da tia e ajudava nas despesas. Esse arranjo durou pouco, porém.

No primeiro simulado do cursinho, Gilberto tirou a melhor nota entre os 220 alunos. O dono do preparatório, ele mesmo egresso do ITA, espantou-se. Veio procurá-lo com a oferta de uma bolsa integral, na turma preparatória para o ITA, mas exigiu dedicação integral. “Para um menino do campo, que fez supletivo no interior, o simulado dele foi estupendo”, diz Eliel Barbosa da Silva, dono do cursinho Elite. “Já conheci gente inteligente como ele, mas ninguém partiu de onde ele partiu.” Foi nesse momento que a tia Idalina (servente em uma escola pública, casada com um frentista, mãe de três filhos) fez sua parte no destino do sobrinho: disse a ele que estudasse sem preocupação de trabalhar. Gilberto nunca tivera essa chance e se atirou a ela de cabeça. “Ele estudava das 7 da manhã às 11 da noite”, diz Idalina.

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