Notícias
Aluno do ELITE é capa da Revista Época
O triunfo do talento
Página 01
Gilberto Giuzo protagonizou um milagre. Trabalhava na roça, interrompeu os estudos aos 14 anos, fez supletivo – e chegou ao ITA, a melhor escola de Engenharia do país. O que sua história ensina sobre o modo como o Brasil trata seus superdotados.
Nova Bandeirantes é um município de 13 mil habitantes no extremo norte de Mato Grosso. Fica longe, quase no ponto onde o Estado faz divisa com Pará e Amazonas. Foi ali, na zona rural (região de onça, jibóia e gado nelore), que Gilberto Giuzo passou a maior parte de sua vida. O menino magrelo de olhos esverdeados, filho de migrantes paranaenses, demonstrou desde cedo um talento incomum: aos 4 anos já fazia contas de cabeça, para surpresa dos pais, sitiantes sem instrução. A vocação matemática não impediu que levasse a vida da roça. Cresceu em lombo de cavalo, tratava do gado, erguia cercas na propriedade da família. As escolas que freqüentou eram precárias mesmo para os padrões brasileiros. Desde a infância dividia seu tempo entre as aulas e o trabalho.
Neste ano, aos 24, Gilberto terminou o 2o ano do Instituto Tecnológico da Aeronáutica, de São José dos Campos. Lá se forma a elite da engenharia brasileira. Também neste ano, conseguiu uma das 38 bolsas da Fundação Estudar, disputada por 6 mil candidatos. O prêmio tenta identificar os jovens mais promissores do país. Gilberto é um deles.
Passou pelos obstáculos sucessivos do mau ensino público, da privação cultural, do trabalho infantil, do abandono escolar e do isolamento geográfico. Fez de si mesmo um milagre estatístico. Em um país que joga fora a maior parte de seu potencial humano, resistiu. Ele representa um triunfo do talento, um triunfo da vontade, um caso em um milhão. Sua história ajuda a retratar – pelo reverso – a tragédia do desperdício humano brasileiro. Quantos Gilbertos haverá por aí, perdidos, vivendo abaixo de seu potencial?
Em Nova Bandeirantes está começando a estação das chuvas. Manoelina dos Santos Costa, mãe de Gilberto, conta, divertida, que uma manada de porcos-do-mato invadiu o sítio onde a família cria gado de corte. Fala bem, dona Manoelina. Ela conta que o menino, segundo de seus três filhos, único homem, foi diferente desde cedo. “A irmã era hiperativa, deu muito trabalho, mas ele era reservadinho”, diz. “Acho que sempre foi meio adulto.” O pai descobriu que Gilberto era capaz de fazer contas de cabeça e passou a exibi-lo aos amigos. Logo virou o centro das atenções. “Ele nem sabia segurar o lápis”, diz a mãe. Ela deixa claro que isso era coisa do menino. Nenhum dos pais estudou além da 4a série.
Gilberto foi para a escola rural aos 6 anos. Havia ali uma única classe, com alunos de todas as idades. As várias séries ficavam juntas na mesma sala, divididas em grupos de carteiras. A professora se alternava entre eles. Essa é uma forma antiga de ensinar, usada modernamente apenas quando faltam professores. Há no Brasil 53.609 escolas multisseriadas, com 1,2 milhão de alunos. Mais de 49 mil delas estão na área rural. “Na escola sempre me falavam que ele era muito inteligente, que tinha de estudar”, diz a mãe.
